sexta-feira, janeiro 16, 2026

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Sempre é Carnaval na Vale Samba

por Luciana Reese Pereira Tesser e Antonio Carlos “Bolinha” Pereira

Embora pareçam antagônicas, a festa da Páscoa e a do Carnaval conservam muitas semelhanças. O que aproxima a maior festa sacra e a maior festa profana? O Domingo de Páscoa pode acontecer entre 21 de março e 25 de abril, e deduzindo 46 dias encontramos, entre 4 de fevereiro e 9 de março, as datas limites para o último dia de Carnaval, outrora conhecido pelo simpático epíteto de “Terça-Feira Gorda”.

Pois em Joaçaba esses dias são ansiosamente aguardados: aqui acontece um magnífico desfile carnavalesco, coordenado desde 1994 pela Liesjho, Liga das Escolas de Samba de Joaçaba e Herval d’Oeste, com a participação da “Aliança”, extinta desde o falecimento de seu incentivador Carlos Fett. Ela havia sido criada em 1994, para fazer frente às outras duas então existentes, a “Vale Samba”, originada em 1979 dos Blocos “Reis do Petróleo” e “Fino Trato” e a “Unidos do Herval”, além da “Acadêmicos” que estreou em 2013.

A escola Vale Samba apresenta as cores oficiais do município: azul e branco. A agremiação venceu em sua estreia e acumula, ao longo dos anos, 15 títulos, tornando-se a maior campeã do Carnaval de Joaçaba.

O amor pela Vale Samba atravessa gerações. A atual presidente, Cristina da Silva, cresceu nos barracões da escola acompanhando sua mãe, que costurava fantasias para os desfiles. Hoje, ela lidera a agremiação ao lado do vice-presidente Elanderson Correia, que também tem uma longa história com a escola, inclusive tendo exercido a presidência em anos anteriores.

Damares Calai, a Dadá, está há 18 anos na Vale Samba e assume atualmente o cargo de diretora de alegoria. Anderson Tavares, diretor de Carnaval, participa dos desfiles desde os 6 aninhos, e além disso novos integrantes chegam a cada ano, contribuindo para a montagem de carros alegóricos e fantasias.

Neste Carnaval de 2025 a Vale Samba convida todos a vivenciar a magia da azul e branco, com o enredo “Abracadabra”. Que o amor pelo samba transborde e que cada integrante entre na avenida levando consigo a história, a paixão e a dedicação dessa grande família do Carnaval de Joaçaba.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

O DESTAQUE

O Governador Jorginho Mello, por meio da Assembleia Legislativa de SC, decretou em 2023 que Joaçaba é a Capital Catarinense do Carnaval. Uma lástima que tenham demorado tanto tempo a admitir o que nós sempre soubemos. Eles poderiam ter feito isso dez, quinze anos antes, quando ainda estavam por aqui grandes e entusiasmados incentivadores, como Carlão Tratsk da Unidos, Carlinhos Fett da Aliança, João Paulo Dantas da Vale Samba.

Foto: Divulgação
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A HISTÓRIA

Em 1979 o prefeito Evandro Magalhães de Freitas emprestou apoio oficial e o desenvolvimento do terceiro melhor carnaval do Brasil teve impulso definitivo através do prefeito Normélio Zílio, no ano de 1997. Os resultados estão aí, melhores a cada ano que passa, pois os governantes seguintes ampliaram o apoio financeiro, enquanto muitos abnegados, voluntariamente, dedicam seu tempo para as Escolas e são responsáveis pelo sucesso do nosso carnaval, que atrai pessoas de toda a região, de estados vizinhos e até de outros países, que vem assistir e desfilar.

É importante destacar a participação de grupos familiares para o surpreendente êxito do carnaval de Joaçaba. Antigamente as famílias iam para o barracão: pais, filhos, sobrinhos e traziam os vizinhos, o que transformava o trabalho em uma festa de confraternização, dando um toque especial a essa responsabilidade.

“Joaçaba Samba e Faz Carnaval Desde 1934” cita um desfile de blocos na rua Getúlio Vargas, com animação da Orquestra dos Irmãos Lins, noticiado em 11/02/1934 pelo jornal Cruzeiro, de propriedade de um tio do meu pai: “Cruzeiro e Herval, irmanados na cordialidade existente entre ambos, darão início hoje aos folguedos carnavalescos. Para esse fim, organizaram os blocos “Alô, Alô” e “Anjos da Cara Suja” que sairão às ruas com as mais originais fantasias,”.

As crenças e a religiosidade, fazem parte da cultura de um povo, e a cultura afro trouxe o carnaval para Joaçaba, afirma João Paulo Dantas, jornalista e escritor, em seu blog “Filho da Pauta”: “A cultura negra, no Vale do Rio do Peixe, mesmo que tímida, exerceu algumas influências na região, e entre elas vale destacar, com mais ênfase, o desfile de escolas de samba, que se deve a um pequeno núcleo de negros que existiu em Herval d’Oeste, décadas 1930 e 1940. Esses negros, vindos de São Paulo, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, chegaram até o Vale do Rio do Peixe pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande do Sul, implantada no início do século XX, cujo apogeu se deu nos anos 1930 e 1950”.

A base física da manifestação cultural que acomodava esses pioneiros era um terreiro em Herval d’Oeste, na região conhecida como Coxilha Seca, que abrigava uma mistura de Umbanda e Candomblé, a Casa Nova Era, e tinha sob o seu comando um Pai-de-santo originário da Bahia, Antônio Nunes de Oliveira, que morou alguns anos no Rio de Janeiro antes de vir para cá. Ele trabalhou no Cais do Porto com um dos expoentes da religião afro e do carnaval carioca, o Mano Elói Antero Dias, fundador de três escolas de samba no Rio: Deixa Falar, Vai Como Pode e Prazer da Serrinha, que muitos anos depois viriam a ser a Portela e a Império Serrano.

Ele aprendeu com Mano Elói os ofícios do Candomblé, e os repassou aqui em Herval para a sua filha Maria dos Prazeres Oliveira, mãe-de-santo e primeira Porta Bandeira da Escola de Samba Unidos do Herval”. Negra, Mãe-de-santo, D. Maria dos Prazeres morreu nos anos oitenta, mas ainda teve a oportunidade de ver a sua escola de samba do coração ser campeã no carnaval de 1980, com um enredo histórico que contava, subjetivamente, a origem de Herval d’Oeste, com base na história do trem de ferro: “Puxa a Locomotiva e Leva para a Avenida o Nosso Carnaval”, de Nildo Ouriques e o Toninho, Antonio Lopes da Rocha. A Vale Samba conquistara o primeiro título em 1979, sobre as oponentes da época, a Eskinão e a Unidos.

Fica evidente que a semente plantada no distante passado da Batalha do Contestado fecundou o fruto das Escolas de Samba de Joaçaba e Herval, pois foi pelos trilhos do trem de ferro que chegaram os precursores batuqueiros, e em 2000 a Vale Samba faturou o troféu fazendo seu melhor desfile em todos os tempos, com a surpreendente passagem de uma locomotiva estilizada na Avenida do Samba: “Do Passado Contestado, Um Presente de Futuro”.

No barracão as atividades são feitas em conjunto e tudo depende de todos, o que leva as pessoas a dar e a receber sugestões, numa espécie de mutirão, tendo como resultado um carro alegórico com o toque especial de cada um. Gente que nem sabia que tinha capacidade para elaborar uma alegoria é motivada a exercer sua criatividade, e com isso todos saem ganhando.

A nossa maior festa popular encontra-se em um impasse pois virou um grande negócio: ou se profissionaliza de vez, buscando recursos, ou corre o risco de acabar, pois com o crescimento verificado as Escolas contratam “especialistas” em busca da vitória, o que tirou o sabor lúdico desses encontros.

Foi de tamanha grandeza o seu crescimento, que o carnaval ficou maior que a cidade. Em torno de cinco mil pessoas desfilam na Avenida do Samba, o que representa aproximadamente dez por cento da população das duas cidades irmãs. Por aqui se diz, em tom de brincadeira, que talvez este seja o maior carnaval do mundo… Afinal, se o Rio de Janeiro tem aproximadamente 6 milhões de habitantes, dez por cento significaria 600 mil pessoas no Sambódromo!

Voltando a falar sério, com o crescimento exponencial do Carnaval de Joaçaba e Herval d’Oeste novos desafios surgem. A necessidade de profissionalização é latente, exigindo investimentos, planejamento e um modelo de gestão que garanta sua continuidade sem comprometer a essência da festa. O futuro do Carnaval local dependerá do equilíbrio entre tradição e modernidade, entre a paixão de seus organizadores e a sustentabilidade do evento.

O que não se pode perder de vista é que, mais do que um espetáculo grandioso, nosso carnaval é parte viva da identidade cultural da região. Seu espírito festivo, construído ao longo de décadas por famílias, voluntários e amantes do samba, segue pulsando a cada batida da bateria, a cada enredo que emociona a avenida. Porque, no fim das contas, aqui, sempre é Carnaval.

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