Por Jaime Telles, de Joaçaba/SC, orador do Instituto Histórico e Geográfico do Oeste Catarinense (IHGO).
Também na dor, a música costuma ser ombro sobre o qual nos debruçamos e sucumbimos à copiosas lágrimas confessas. Lembro então, da inspirada composição de Mauro Moraes, eternizada por José Cláudio Machado, que a considerou um hino letra, capaz de incitar nossos pensares à cerca de enchentes previsíveis e sazonais. Embora incomodativas, elas até deixam rastros de perda e necessidade de refazimentos, mas nada se compara ao que vemos neste maio de 2024. É coisa mais que esquisita, a gadaria toda com o focinho n’água no campo alagado.
Como se não bastasse a lama que ignora a pressa e lenteia os passos, o outono já ensaia um minuano e bafeja querendo antecipar o inverno. Cadê meu poncho? Meus Deus, nem casa há! O que se vê são cidades afogadas e lambidas pelo barro, que se mistura a entulhos e fétidas carcaças. Morreram nonas e guris, cuscos e pingos, touros e tauras, cuja força fora menor que a volúpia das águas invasoras.
Teria muito mais a reportar, pensar e sofrer. Porém, uma ponta de alegria bombeia o coração na direção do olhar solidário. Se há quem se regozije ou tente interpretar tamanha desdita, creia, há muito mais para estender a mão, enfiar os pés no barral desafiando farpa e entulho pontiagudo, impelido pela ânsia de salvar. É quando a coragem encoraja outrem e o mutirão se faz no ímpeto coletivo de sentir-se humano de verdade, sobrepujando qualquer possibilidade de diáspora. O rico rincão que já foi pátria, ainda é palmilhado por inúmeros heróis, que a seu tempo, saberão soerguer sua moral e suas riquezas, pois cambaleia, mas retoma o prumo com garra e altivez.
E, a essas alturas, se alguma homenagem ajuda, que sejam versos gaudérios, de quem conhece a lida e traz no galpão d´alma sofrida um cômodo sutil, onde guarda homéricas forças para momentos desafiadores como o presente.
MILONGA ABAIXO DE MAU TEMPO
Música de autoria de Mauro Moraes, gravada por José Cláudio Machado, Luiz Marenco, Cesar Oliveira e Rogério Mello e outros gigantes do Sul.
Coisa esquisita a gadaria toda
Penando a dor do mango com o focinho n’água
O campo alagado nos obriga à reza
No ofício de quem leva pra enlutar as mágoas
Olhar triste do gado atravessando o rio
A baba dos cansados afogando a volta
A manhã de quem berra num capão de mato
E o brado de quem cerca repontando a tropa
Agarre amigo o laço, enquanto o boi tá vivo
A enchente anda danada, molestando o pasto
Ao passo que descampa a pampa dos mil réis
E a bóia que se come, retrucando o tempo
Aparta no rodeio a solidão local
Pealando mal e mal o que a razão quiser
Amada, me deu saudade
Me fala que a égua tá prenha, que o porco tá gordo
Que o baio anda solto e que toda cuscada, lá em casa comeu
Amada, me deu saudade
Me fala que a égua tá prenha, que o porco tá gordo
Que o baio anda solto e que toda cuscada, lá em casa comeu
Coisa mais sem sorte esta peste medonha
Curando os mais bichados, deu febre no gado
Não fosse a chuvarada se metendo a besta
Traria mil cabeças com a bênção do pago
Dei falta da santinha, limpando os pesuelos
E do terço de tentos nas preces sinuelas
Logo em seguidinha é semana santa
Vou cego pra barranca e só depois vou vê-la
Agarre amigo o laço, enquanto o boi tá vivo
A enchente anda danada, molestando o pasto
Ao passo que descampa a pampa dos mil réis
E a bóia que se come, retrucando o tempo
Aparta no rodeio a solidão local
Pealando mal e mal o que a razão quiser
Amada, me deu saudade
Me fala que a égua tá prenha, que o porco tá gordo
Que o baio anda solto e que toda cuscada, lá em casa, comeu
Amada, me deu saudade
Me fala que a égua tá prenha, que o porco tá gordo
Que o baio anda solto e que toda cuscada, lá em casa, comeu
Amada…
