sábado, maio 30, 2026

HomecomunicadorA PRIMEIRA A GENTE NÃO ESQUECE... MAS A SEGUNDA FOI MELHOR!

A PRIMEIRA A GENTE NÃO ESQUECE… MAS A SEGUNDA FOI MELHOR!

                                        por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, comunicador

– “Que prazer rever vocês! Muito obrigado”. Assim Roberto Carlos saudou o público que lotava o Ginásio Silveirão naquele 25 de julho de 1973.

Quando falei com o “Rei” eu tinha apenas 16 anos. A primeira entrevista a gente não esquece, mas a segunda foi mais interessante.

Com alegria faço esse registro do retorno do Roberto Carlos a Joaçaba, quando novamente tive a felicidade de entrevistá-lo. O cara é humilde e merecedor do sucesso que tem alcançado ao longo desses últimos 50 anos. Já o chamavam para iniciar o show, e ele respondeu a minha última pergunta:

– “Embora a gente como artista não tenha a oportunidade de conhecer a cidade, como outras pessoas fazem, eu me lembro muito bem de Joaçaba, lembro das pessoas que eu conheci, eu tenho amigos aqui, entende, e tudo isso é muito importante pra mim. Essas coisas, por terem sido rápidas, não se apagam facilmente, não. Eu fui bem recebido aqui na outra vez e nessa também.” E completou: “Bolinha, muito obrigado, um grande abraço pra você, agradeço pela oportunidade de dizer tudo isso ao público, prazer em revê-lo e espero encontrá-lo outras vezes, até uma próxima se Deus quiser.”

Em 1967 no auge da Jovem Guarda Roberto Carlos havia feito uma apresentação em Joaçaba, no antigo Estádio Municipal Oscar Rodrigues da Nova, atual Parque Municipal. O show entrou para a história e também foi marcante para ele, que cantou no escuro. Anos depois soubemos que o empresário só liberou o Roberto para fazer o show após receber todo o valor do contrato, pois cansaram de ter prejuízo com maus pagadores.

Já estava escurecendo quando foi arrecadado na bilheteria dinheiro suficiente para cumprir o compromisso. O estádio não tinha iluminação na época e o show marcado para o meio da tarde só começou depois das dezoito horas, e em julho na nossa região isso quer dizer noite escura. O público estava impaciente pela demora, mas com a certeza de que aconteceria, pois na chegada do avião ao Aeroporto Municipal Santa Teresinha praticamente toda a cidade fora ver de perto o Roberto, que chegou por volta das 15h30. Grande número de fãs o esperava e quando abriram a porta do avião especial da Sadia, que o trouxera, Roberto apareceu com uma capa preta. Quando a multidão o aclamou ele abriu os braços e mostrou a capa, que por dentro era vermelha, provocando impacto nos fãs.

Para ajudar na venda dos ingressos, um impresso destacava:

DIA 22 – Sábado à Tarde no Estádio Municipal Oscar da Nova – 15h30

          O MAIOR CANTOR DE MÚSICA JOVEM – ROBERTO CARLOS

   – Assista em Joaçaba O REI DA JUVENTUDE e concorra a 1 FUQUE O KM.

O tal FUQUE era um FUSCA, o cobiçado carro da VW, muito popular já naquele tempo. Quando aconteceu o sorteio do FUQUE, “o premiado foi um número que não havia sido vendido” (para sorte da Comissão, pois assim o dinheiro arrecadado foi suficiente para cumprir o compromisso).

Devido ao atraso o Conjunto RC-7 foi vaiado quando subiu ao palco improvisado sobre o gramado (instalado na frente da arquibancada que ficava perto do Rio do Tigre), mas o artista principal foi aplaudidíssimo. A banda que o acompanhou era formada por Anderson Marques, o Dedé (bateria), Antonio Wanderley (teclados), Bruno Pascoal (baixo), Ernesto Neto, o Nestico (sax), José Provetti, o Gato (guitarra), Maguinho (trompete), Raul de Souza (trombone) e alguns deles ainda hoje fazem parte da banda de apoio de Roberto Carlos, um patrão fiel.

Procurando amenizar a situação, alguns carros apontavam seus faróis para dentro do estádio, mas estavam distantes, na subida perto da antiga sede da Escola de Samba Aliança e a iluminação não ajudava muito. O show foi assistido por um público calculado em 5.000 pessoas, vindas de toda a região, mas poucos puderam vê-lo bem. Apesar do frio que fazia no local, todos acompanhamos seus maiores sucessos: “Mexericos da Candinha”, “Pega ladrão”, “Eu te adoro meu amor”, “Parei na contramão”, “Esqueça” e outras, encerrando com um arranjo especial no “Calhambeque”.

Eu estava ao lado do palco e ao final da apresentação me identifiquei, expliquei ao Roberto que eu fazia um programa na rádio local e perguntei se ele me concederia uma entrevista. Ele assim me respondeu “Bolinha, te dou a entrevista com o maior prazer, mas eu tenho que preservar a voz, pois tenho uma nova apresentação no baile de debutantes do clube local (o Dez de Maio), e eu gostaria de descansar. Mas, se você está disposto a acordar cedo, meu avião para São Paulo sai às 8 horas da manhã. Se quiser ir onde estou hospedado, te recebo com o maior prazer.”

Claro que às 7 horas eu já estava na frente do portão da bela edificação ao lado da Unimed que lembra um castelinho, a residência dos anfitriões do cantor, Maria Odete e Ivan Oreste Bonato. Levei algumas revistas e capas de discos para pegar o autógrafo do Roberto, especialmente no disquinho do Trio Esperança com “A Festa do Bolinha”, de autoria do Roberto e do Erasmo, que foi prefixo de meu programa de rádio por 50 anos, até 2016.

No peito o coração batendo apressado, nas mãos um gravador emprestado pela rádio Herval d’Oeste, na qual eu apresentava “Os Discos do Bolinha”. Roberto estava tomando café e quando ele veio até a sala de entrada da residência eu estava bastante nervoso. Não é todo dia que você, um guri de 16 para 17 anos, fica frente a frente com o maior ídolo da música brasileira.

E tive o privilégio de ouvi-lo antecipar informações sobre o álbum da trilha sonora do filme a ser lançado em janeiro do ano seguinte, “RC em Ritmo de Aventura”, e do nome de algumas das músicas do LP: “Quando”, em um ritmo mais ou menos como “Que vá tudo pro inferno”; “Como é grande o meu amor por você”, que é uma música lenta; “E por isso estou aqui”, inspirada no estilo daquelas “Fugas” de Bach; “Por isso corro demais”, um estilo de música pouco usado. Falou sobre a grande vendagem do seu livro “RC em Prosa e Verso” e do sucesso das cantoras Wanderlea e Martinha.

E agradeceu “o carinho que recebi aqui me dá vontade de voltar o mais depressa possível. Mas, de qualquer forma eu tenho que ir por causa do programa Jovem Guarda, mas numa breve oportunidade nós voltamos para rever as fãs que nos aplaudiram e que nos trataram com grande carinho. Muito obrigado, um abração a todos e até uma próxima, se Deus quiser.”

Eu afirmo, não é à toa que o cantor e compositor Roberto Carlos Braga desfruta desse sucesso imenso ao longo dos anos, ele é extremamente carismático e muito atencioso com as pessoas. Fizemos uma única foto, o anfitrião trouxe a máquina fotográfica e me provocou dizendo de brincadeira “Bolinha, é slide, deixa para a outra vez fotografar com ele”. Eu disse – Não, eu quero hoje, não sei se vai ter outra vez!

Aquela entrevista foi publicada por uma revista de Blumenau, a Revista do Sul. Joaçaba comemorava o cinquentenário e o Sr. Oséas Guimarães, diretor da revista, vinha muito para cá, vendendo comerciais para as empresas e fazendo reportagens. E ele vinha ao bar da minha família, o Bar e Café Itajaí, ao lado da Acioc e perguntou se eu gostaria que ele publicasse aquela entrevista. Eu disse “Sim, mas eu não tenho como lhe pagar”. Ele respondeu: “Não, nós não vamos lhe cobrar nada, porque é uma matéria de interesse jornalístico. Nós vamos publicar”.

A saudosa colega radialista Maria de Lara, na época casada com Cyro Visalli, um casal que teve em Joaçaba a primeira agência de publicidade da região, a CYMAR Publicidade, pegou a fita que era daqueles rolinhos, dois rolinhos, copiou e transcreveu a minha entrevista com o Roberto Carlos.

Agora, leiam a “Nota da Redação”, publicada pelo Dr. Oseas: “Ao publicar a interessante entrevista concedida por Roberto Carlos ao menino bom e inteligente que é o Bolinha, que tem um ótimo programa na Rádio Herval d´Oeste, a nossa revista que penetra em todos os lares, vai ao encontro do modo de sentir de hoje da nossa juventude. Não somos adeptos do ye-ye-ye nem fazemos por mercantilismo para ganhar dinheiro. Pelo contrário, pertencemos à chamada Velha Guarda, mas temos que viver a época. As minhas filhas apreciam Roberto Carlos, Ronnie Von e os leitores que são mais velhos compreenderão e aplaudirão o nosso gesto.”

Ele contribuiu para perenizar meu modesto programa de rádio, que sempre fiz por gostar, nunca ganhei dinheiro com isso. Foi por diletantismo, algo que eu fazia com o maior gosto, a maior paixão.”

Como já falei em outras ocasiões, apenas pelo fato de usar um microfone, numa emissora do interior, eu tive acesso a vários artistas: Erasmo Carlos, Wanderley Cardoso, Agnaldo Timóteo, Angela Maria, Altemar Dutra, Antonio Marcos, Jerry Adriani, Moacyr Franco, Raul Seixas, Celso Blues Boy e o líder da banda Renato e Seus Blue Caps, Renato Barros.

Hoje, ao relembrar esses encontros, percebo que não foram apenas entrevistas com os maiores ídolos da música brasileira. Foram momentos que moldaram minha vida de comunicador, que fortaleceram minha paixão pelo rádio e me deram a certeza de que vale a pena acreditar nos sonhos. Roberto Carlos seguiu sua trajetória brilhante, levando emoção a milhões de pessoas, e eu segui a minha, sempre com o coração cheio de gratidão por ter vivido, tão jovem, experiências que muitos gostariam de ter tido.

Mais detalhes… https://osdiscosdobolinha.blogspot.com/2012/10/barra-limpa-mora-o-rei-em-joacaba.html?view=sidebar

… veja em meu blog: https://osdiscosdobolinha.blogspot.com/2013/04/roberto-carlos-outra-vez-em-joacaba-1973.html?view=sidebar

E no Youtube, pesquise Roberto Carlos e Bolinha em Joaçaba

Posts semelhantes

Posts recentes